segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Conto - Névoa


Era difícil saber exatamente onde eu estava. A grama estava molhada, o tempo estava extremamente úmido e abafado e eu mal conseguia ver o céu cinzento quando olhava para cima. As árvores pareciam com as do parque que eu frequentava quando criança, e ao mesmo tempo pareciam completamente diferentes – mais sombrias, como se escondessem perigos que eu não conhecesse. Ou não quisesse conhecer.



Caminhei pelo que pareceu ser um longo tempo. Meus pés estavam doloridos, as pernas extremamente cansadas, o suor escorria pelo meu pescoço, deixando meus cabelos lisos pregados, desalinhados. Meu vestido florido estava com grandes manchas de suor na frente e nas costas, minha sapatilha estava cheia de lama e pedaços de grama, eu já sentia meus braços e pernas arderem com os arranhões do mato que eu enfrentava enquanto procurava uma saída. Mas quanto mais eu andava, mais mato havia. Mais altas eram as árvores, mais espinhentas eram as plantas – e mais escuro ficava. Eu ouvia barulhos, rosnados, pegadas. Eu sabia que não era possível ser o único ser vivo naquela mata. Mas nada do que estivesse lá comigo iria me ajudar ou me deixar mais segura. Eu estava essencialmente sozinha. Quanto mais escuro ficava, mais perdida eu me sentia e percebia que com o anoitecer, eu iria ter que enfrentar não só a escuridão, mas todos os monstros que viriam junto com ela.

Eu estava com muita sede. Mesmo o tempo tendo esfriado com o que eu sentia ser o fim de tarde, o calor do início do dia e o esforço da caminhada drenaram totalmente minhas reservas de água e energia física. Eu sentia como se estivesse vagando por aquele lugar por muitas horas. Eu estava exausta. Mas continuava andando. A passos mais lentos, com a respiração mais curta, o cansaço me consumindo lenta e cruelmente a cada segundo. Eu ouvi o barulho de água. Respirei fundo e juntei toda a minha energia para seguir o rastro daquele barulho. Água. Renovaria um pouco minha energia. Cheguei até a correr um pouco quando o barulho se tornou alto, nítido. Por trás de duas grandes rochas cobertas por plantas, havia uma queda d’água. Perfeitamente cristalina. Fechei os olhos enquanto bebia um pouco. As pessoas dizem que água é insípida e inodora. Mas aquela água cheirava como a bebida dos deuses e tinha um sabor tão divino quanto seu cheiro. Lentamente, senti a água ficando cada vez mais fria. Abri os olhos e me deparei com uma aparência suja, turva e um cheiro desagradável. Cuspi o que tinha na boca. O que havia acontecido? Aquela água estava cristalina e perfeita há segundos. Olhei em volta e havia uma névoa se aproximando, ela era cinzenta e a cada segundo que se aproximava de onde eu estava, ficava mais densa e mais escura. Me fazia sentir muito medo. De onde eu estava não havia nenhum lugar para correr. Pulei de cima da pedra para dentro da água turva. Se eu mergulhasse, talvez a névoa não me pegasse. Senti todos os meus machucados arderem, temia pela minha saúde, se aquela água não era limpa, e eu havia bebido, e eu estava mergulhada nela enquanto meu corpo estava coberto de feridas abertas, eu certamente estava suscetível a infecções. Mas eu não tinha outra opção. Eu tinha que tentar fazer alguma coisa, qualquer que fosse, para me salvar.

Quando a névoa foi se aproximando o suficiente para quase tocar meu rosto, eu mergulhei. Prendi minha respiração e esperei. Não sabia quanto tempo ia suportar, ou quanto tempo aquela névoa ia levar para passar, mas eu esperei. Eu ouvi uma voz. A princípio ela era nebulosa e inconstante, mas logo se tornou nítida. “Abra seus olhos”, dizia a voz. Era a voz de um homem. “Abra seus olhos e salve-se” dizia ele. Meu fôlego estava acabando e eu estava entrando em pânico. Não havia ninguém nesse lugar, eu estava sozinha. A quem pertencia aquela voz? Eu não podia abrir meus olhos naquela água suja. “Você não tem muito tempo” ele continuou. Não tenho muito tempo, pensei em desespero. “Confie em mim. Abra os olhos” ele afirmou. Balancei a cabeça negativamente. Mesmo embaixo da água eu podia sentir as lágrimas se formando em meus olhos. “Confie em si mesma. Não é real. A água, a névoa, a dor, as feridas. Tudo foi formado pelo seu medo. Liberte-se dele e você será salva” dizia a voz com confiança. Eu levantei a cabeça para fora da água, tentei tomar fôlego e escalar a pedra de volta. Mas a voz havia sumido. Eu sabia que era tarde demais, eu não tinha mais forças, eu não tinha mais fôlego, a dor era grande demais, me dilacerava de dentro para fora. A água continuava turva e a névoa agora havia me alcançado. Ela sugava todas as minhas energias, todo o ar que eu havia tentado resgatar. Deitada de lado na pedra, eu senti minhas feridas arderem, queimarem. Eu senti a escuridão da névoa me consumir e eu fechei os olhos na esperança de que a escuridão levasse todo o sofrimento embora e me deixasse em paz.

domingo, 19 de outubro de 2014

Anatomia do Medo


"I shook, violently. I was terrified. Not frightened, not apprehensive—viciously and unremittingly terrified. Mindless, brain-stem terror, the kind that quite simply bypasses rational thought and heads straight for your soul. I felt horribly violated, somehow, used. Helpless. Weak." (Jim Butcher)


O medo faz parte da vida. O sofrimento faz parte da vida. As decepções fazem parte da vida. Todo mundo passa por essas sensações ao longo dos anos. Mas e quando as cicatrizes voltam a latejar, mesmo depois de aparentemente cicatrizadas? E quando o medo é tão grande que paralisa? Não uma simples apreensão, um terror violento e incessantemente apavorador. Do tipo que ultrapassa as barreiras do pensamento racional e lhe atinge direto na alma. Como se supera algo assim?

Não há nada, nenhum pensamento racional que te prepare para certas situações. Não há nada que você possa fazer para voltar no passado e reagir como você gostaria de ter reagido – como um dia você prometeu que reagiria. Não existe alguém mais decepcionado com você do que você mesmo. Por ter sido tão fraco quando você queria ser a pessoa mais forte do mundo. E ainda assim você é odiado, cobrado, julgado, sobrecarregado, acusado, responsabilizado. E ninguém vai entender como a situação toda é devastadora para você. Podem existir uma ou duas pessoas dispostas a tentar. Mas, essencialmente, você está completamente sozinho. E cabe somente a você a sair da escuridão a qual você foi jogado.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Conto - Por Trás do Segredo

Todo mundo tem alguma coisa que guarda pra si. Algo que preferiria que ninguém soubesse. Às vezes é um prazer culposo. Às vezes uma confissão. Às vezes... simplesmente uma verdade dolorosa demais. Eu? Minha vida geralmente é um livro aberto. Existe algo muito bom nisso. E algo muito ruim. Não, eu não tenho muitos segredos... na verdade, apenas um.

É difícil lidar com esse segredo sozinha, especialmente porque é difícil disfarçar os efeitos, especialmente físicos, resultantes dele. Mas sei que as pessoas nunca vão compreender, então guardo pra mim. A gente vê o tempo todo homens e mulheres "discutindo" sobre a dor mais intensa: a de levar um chute nos países baixos ou as dores do parto. Tudo bem que eu não tenho como provar a primeira, mas as dores do parto foram fichinha para as dores que sinto hoje. Mas minha palavra não serviria como carta certa no baralho. Iam sempre questionar "por quê". Eu não estou pronta pra esses "por quês". Iam sempre colocar a culpa (de algo que não posso controlar) em mim, e não estou pronta pra ouvir incessantemente "Você que não quer melhorar, se quisesse, faria isso ou aquilo". Iam sempre menosprezar minha dor. Eu não estou pronta pra lidar com tal descaso com um ser humano. Iam sempre me julgar... dramática, chorona, fraca... E podem me chamar de qualquer coisa, mas ser humano, animal ou ET nenhum pode ser considerado fraco sentindo a intensidade e duração de dor que sinto há tantos anos e ainda continuar em pé.

Alguns dias são mais fáceis. A dor é tolerável. A rotina me distrai. A companhia me faz sorrir e esquecer por um instante que a vida não gira em torno só da dor. Nos dias em que a dor é intensa... esses são os dias mais difíceis. Como configurar em palavras, ou números a intensidade de uma dor? Ninguém sente igual a ninguém. Um beliscão pra um, é uma brincadeira. Pra outro é motivo de um hematoma. Uma queda pra um é apenas mais uma história para a noite de Natal em família, mas pra outros... é o desintegrar de um membro.

Como agir quando sua avó liga no seu aniversário e pergunta como você está? Você responde que está tudo bem... que sua filha está bem, cresceu 12cm "de repente" e está adorando a nova escola. Que seu marido está bem, que acabou de chegar de viagem e ganhou o prêmio de empreendedor do ano, e vamos abrir uma champanhe pra comemorar. Então... ela pergunta de você especificamente, do seu dia e sua rotina.

Ah vovó... A dor é muito intensa nos últimos meses, especialmente hoje. Mas eu não queria cortar o barato do Logan ou da Carrie. Eles estão tão animados, me compraram presentes e fizeram reservas no meu restaurante preferido. Eu vou tomar 4 comprimidos, me enfiar debaixo do chuveiro fervendo, vestir meu melhor vestido, colocar meu perfume preferido e ir com eles comemorar meu dia e nossas conquistas juntos. Mas o que eu queria mesmo era gritar. Era descarregar essa dor excruciante que se recusa a sair do meu corpo. Eu queria parar de sentir como se eu fosse explodir de dor a qualquer instante. Eu queria conseguir dormir ou acordar apenas um dia sem dor. Eu queria poder andar sem mancar, o que ando disfarçando há meses. Eu queria poder levantar um membro sem ter que fechar os olhos pra esconder a dor estampada neles. Eu queria subir aquele lance de escadas sem limpar furtivamente uma lágrima no canto do olho. Eu queria poder conversar abertamente sobre isso. Queria mandar meu corpo responder ao tratamento. Queria tanto... que ele obedecesse.

"Lily? Lily, você está aí?", Sua avó desperta sua mente viajante. "Sim, vovó, estou aqui". Então você respira fundo e continua. "Estou ótima! Meu dia só poderia ser melhor se a senhora estivesse aqui! Logan e Carrie compraram presentes e vamos ao meu restaurante preferido!". Ela sorri do outro lado "Ah querida, eu estou chegando no final de semana, completaremos esse aniversário tão perfeito com um almoço na piscina, ok?". E você concorda, sabendo que provavelmente deverá tentar dormir um pouco melhor na véspera, para aguentar a dor de estar uma tarde inteira à beira da piscina sem transparecer esse segredo... esse segredo que você queria tanto que fosse apenas um prazer culposo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Reflexões de final de ano...


Todo mundo faz uma certa reflexão no final do ano. Pequena ou grande, pública ou interna. Mas faz. Quem me conhece sabe que eu sempre fui uma pessoa muito movida a emoção. Porém, durante algum tempo, eu reservei esse meu lado sentimental pra pessoas contadas nos dedos. Rodeada por inseguranças, medos, frustrações, falsos abraços e muitas decepções... eu endureci. Sim, meu coração estava ferido, magoado. Usado, e jogado fora. Era assim que eu me sentia. Pode ter soado dramático, mas não há uma maneira menos intensa de se descrever sentimentos, eu acho.


Esse ano foi um ano crucial pra que eu aprendesse e exercesse a mágica combinação emoção + razão. Um dia eu cansei de me fechar, de me esconder, de aceitar falsos sorrisos e abraços vazios. Deixei de me importar com muitas coisas e pessoas, passei a valorizar muito mais outras. E então me atingiu. Era só isso? Deixar pra trás as coisas e pessoas que me atrasavam espiritualmente me fez uma pessoa ainda mais tranquila, mais sorridente, menos irritadiça, mais determinada e confiante.


Eu sei agora quais pessoas valorizam os meus sorrisos, minhas conquistas e minhas atitudes. Quais pessoas são quase inteiramente diferentes de mim, e ainda nos damos tão bem. Quais pessoas estão tão distantes de mim, mas ainda conseguem ser tão próximas. Quais pessoas entendem meus sentimentos, quais pessoas fazem parte direta da minha vida, e quais pessoas querem que eu faça parte da delas. Famílias inteiras, pessoas solitárias, famílias quebradas e ainda de mãos dadas. Cada uma das pessoas que está no meu coração agora, está aqui por um motivo, e permaneceram por um motivo ainda maior.


Me levou tempo demais pra fazer algumas pessoas perceberem como são especiais, queridas e essenciais em minha vida. Mas tudo que eu passei nos últimos dois anos me fez perceber uma coisa: essas pessoas também estavam fechadas, como eu. Pelos mesmos motivos que eu: medo de se machucar. Quando quebramos uma barreira, estamos suscetíveis a milhares de agentes secundários. Mas nos esquecemos do que estamos mais vulneráveis nessa quebra: ao sentimento. Se nos privamos de sentimentos por tanto tempo, como vamos lidar com eles quando chegarem? Podemos estar nos privando de algum sofrimento. Mas e do amor? É justo nos privar do amor? Não acredito que seja... Tudo que vivi, sofri, sorri... tudo que eu já passei em meus 25 anos me fez a pessoa que sou hoje. As alegrias cravadas em minha memória, elas sempre me fazem sorrir nas lembranças. As tristezas que às vezes fazem uma lágrima escorrer, essas me tornaram mais forte. E sem a força que adquiri ao longo dos anos, talvez eu não estivesse aqui hoje.


Neste ano, dei andamento a sonhos antigos. Alguns a passos lentos, outros mais rápidos, mas sempre andando em frente, sempre crescendo, amadurecendo, errando... e aprendendo. Neste ano, eu também descobri novos sonhos, eu arrisquei, entrei de cabeça, me joguei sem saber se tinha alguém pra me segurar lá embaixo. Por quê? Porque eu sabia que podia me segurar sozinha. E é disso que algumas pessoas precisam: saber como são capazes de realizar seus próprios sonhos. Confie em si mesmo, e busque seus sonhos.


Não importa quanto tempo você vai levar pra realizá-los totalmente... apenas aproveite as emoções e aventuras que te acompanham nessa jornada. E a felicidade deixará de ser algo pra se buscar... pra se tornar algo pra se viver. Um Natal cheio de paz, e um 2013 cheio de sonhos!

terça-feira, 1 de maio de 2012

Homenagem ao Maior Herói Brasileiro

Uma jovem alma já guerreira, que começou a sentir a paixão pela velocidade aos três anos de idade, quando ganhou de presente seu primeiro kart, feito com motor de cortador de grama. Ayrton Senna da Silva. Não acredito existir alguém no mundo que não tenha um enorme respeito por esse grande homem.


Depois de correr com o kart, passar pela Fórmula 3, Senna iniciou na mais prestigiada categoria do automobilismo, a Fórmula 1, para nossa alegria, no GP do Brasil de 1984. Sua primeira vitória aconteceu no GP de Portugal, em 1985, e daí pra frente tudo é história. Em dez anos de carreira na Fórmula 1, Senna passou por quatro equipes, Toleman, Lotus, McLaren e Williams, disputou 162 corridas, foram 80 pódios, 41 vitórias, 610 pontos, 65 pole positions, 19 voltas mais rápidas e 3 títulos mundiais.


Apesar de recordista nas pistas em diversos aspectos, Senna ganhou mais do que apenas fama e glória internacionais. O prêmio que ele mais valorizava ainda se mantém vivo depois de sua trágica morte no dia 1º de maio de 1994: o de ser um dos esportistas mais queridos dos brasileiros. Depois do jogador de futebol Pelé, Senna ainda é considerado o maior ídolo do esporte brasileiro na História. Motivo de orgulho nacional.


Um brasileiro como nós, no entanto, provido de um dom, uma grande auto-estima, garra, habilidade, inteligência, conhecimento, coragem. A adrenalina corria em suas veias cada vez que ele entrava na pista. A inumerável coleção de manobras que pareciam impossíveis tornaram o piloto famoso e nos faziam delirar. Senna era o "Rei da Chuva", por sua habilidade e estilo nas pistas molhadas, o "Rei de Mônaco", porque ninguém venceu mais GPs do que ele em Montecarlo, e o "Rei das Pistas", por motivos que para os brasileiros sempre foram óbvios.


Entre 1985 e 1994, acompanhar pela TV as espetaculares manobras de Senna virou um ritual sagrado, um costume dos brasileiros que se transformou de um momento para outro em um grande vazio. É impossível não lembrar com nostalgia das voltas da vitória, e da performance do piloto nos pódios, sempre exibindo a bandeira do Brasil numa demonstração de orgulho de ser brasileiro em meio à elite do automobilismo mundial. Senna levou seu talento a ser considerado sem sombra de dúvidas um dos maiores pilotos da Fórmula 1 de todos os tempos, comparado a heróis como Juan Manuel Fangio ou Jim Clark.


A extraordinária capacidade competitiva de Senna era uma soma de três fatores que raramente aparecem juntos: profundo conhecimento de mecânica e eletrônica, coragem fora do comum para arriscar tudo numa manobra, e tenacidade quase sobrenatural para superar dificuldades. Os mecânicos que trabalharam com Senna dizem que as observações dele após poucas voltas eram tão precisas como as medições eletrônicas.


Segundo o ex-diretor de sua equipe, Peter Warr, "Senna era capaz de determinar em que ponto do circuito o carro dele gastava um decilitro de gasolina a mais. Nessa época, a Lotus de Senna tinha motor turbo, e esse controle era quase impossível de ser feito. Mas ele o fazia com precisão de relógio suíço". O ex-piloto John Watson contou que, certa vez, numa volta de classificação, foi cortado por Senna numa curva, e o que viu jamais esquecerá. "Nunca tinha visto alguém pilotar daquele jeito. Em plena curva, Ayrton estava freando, reduzindo a marcha, girando o volante, acelerando e mantenendo a pressão do turbo. Parecia um polvo. Ver essa habilidade cerebral de separar os componentes e juntá-los com essa coordenação foi um privilégio", contou. Outro mecânico de Senna da escuderia McLaren disse que "Ayrton conseguia falar durante cada volta, narrando o comportamento do motor e a suspensão em cada instante, em cada curva. E isso sobre uma corrida inteira, volta a volta".


Senna construiu sua glória em duelos inesquecíveis com um dos maiores pilotos da história da categoria, o francês Alain Prost. Os dois correram na McLaren em 1988 e 1989. Ambos ganharam um campeonato mundial cada, mas ficou claro que a coexistência dos dois numa mesma equipe era impossível. Prost se transferiu para a Ferrari em 1990 e Senna continuou os outros três anos na McLaren. Os duelos dos dois nas pistas certamente se incluem entre os mais emocionantes da categoria. Em 94 parecia que Senna seria imbatível, já que assinara um contrato com a escuderia Williams. Mas os carros já não eram os mesmos de duas temporadas anteriores, o então jovem Michael Schumacher, a bordo de um Benetton, era um rival cada vez mais perigoso. Nas três primeiras corridas de 94, Senna largou na pole position, mas não terminou nenhuma delas.


No dia primeiro de maio desse ano, na sétima volta do Grande Prêmio de San Marino, no circuito de Ímola, o carro de Senna saiu da pista na fatídica curva Tamburello e se chocou contra um muro a cerca de 300 quilômetros por hora. Senna foi atendido na pista e transferido de urgência para um hospital, mas uma peça da suspensão lhe havia despedaçado parte do crânio. Os esforços para reanimá-lo foram inúteis. O automobilismo mundial perdia assim um campeão como poucos em sua história.


Dois meses antes de sua morte, Ayrton Senna confessou à irmã, Viviane, que gostaria de fazer algum trabalho em benefício das pessoas menos favorecidas mas não tinha idéia de por onde começar. Coube à Viviane Senna, uma psicóloga, com especialização em saúde mental, dar forma ao sonho do irmão.


Ayrton não viveu para ver o instituto que leva o seu nome nascer e crescer. Com dez anos de existência, o Instituto já havia investido mais de R$ 19 milhões em projetos educacionais para 977.547 crianças e jovens de 463 municípios em 25 Estados brasileiros, com a colaboração de 51.217 educadores voluntários e 3.375 escolas. O mais conhecido desses programas, o Acelera Brasil, fez aumentar para 96% a taxa de aprovação nas escolas públicas beneficiadas. A ONG que leva o nome do piloto é comandado por sua irmã.


Dezoito anos se passaram. A saudade e o orgulho não mostram sinais de desaparecimento.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Nem tudo é o que parece...

Quando somos criancinhas, as pessoas nos contam várias histórias. Quem nunca ouviu falar da história da cegonha? Do Papai Noel, do Coelhinho da Páscoa ou da Fada do Dente? Depois a gente cresce, e percebe que aquelas coisas que nos disseram antes não eram exatamente... verdadeiras.

Ninguém conta histórias a crianças pensando "eu vou fazê-la passar pela sua primeira decepção com a mentira" ou "já que ela é uma criança boba e acredita em tudo, vou aproveitar pra me divertir curtindo com a sua cara". Mas é fato que a gente cresce com sonhos, fantasias, contos de fadas, castelos, príncipes, princesas, sapos... e vilões. E se a nossa mente não amadurecer, vamos continuar na vida adulta agindo como se tudo isso ocorresse na realidade. Como se cada pessoa e situação precisasse de um rótulo. O bom, o ruim, o certo, o errado, o verdadeiro, o mentiroso.

Eis uma novidade pra você. Nem todo mundo que mente é mau caráter. Nem todo mundo que diz a verdade o faz por ter caráter. Nem todo gordinho come muito. Nem todo magrinho é saudável. Nem todo mundo que sorri é feliz. Nem todo mundo que sofre é infeliz. Nem todo mundo que trabalha é competente, nem todo mundo que não trabalha é irresponsável. Nem todo mundo que malha fica forte, nem todo mundo que é forte usou bomba. Nem todo tímido é mal educado, nem todo extrovertido é genuinamente animado. Nem todo mundo que anda arrumado é convencido, nem todo mundo que anda desarrumado é relaxado, nem todo hippie é sujo. Nem toda criança é infantil, nem todo adulto é maduro. Nem todos os seus amigos das redes sociais são seus amigos na vida real. Nem todos que deixaram de te adicionar não são seus amigos. Nem sempre as pessoas te chamam pra alguns eventos, mas isso não significa que não gostam de você. Nem sempre podemos ir a algum evento, isso não significa que não tivemos consideração e gratidão pelo convite e pelas pessoas que convidaram.

O que é certo pra você, pode não ser pra mim. Um erro seu pode ser meu acerto. Não existe verdade absoluta, e sim o que funciona pra cada pessoa e a faz feliz. Nem tudo é o que parece... Mas ainda pode ser lindo.

sábado, 7 de abril de 2012

Conto - Amizades

Nem sempre as coisas são como queremos. Às vezes, demora tempo demais pra percebermos isso.

- Ok, certo. Então ficamos assim: Clara traz o bolo, os homens trazem refrigerante e as meninas um prato de salgadinho, menos Flávia e Mariana, vocês trazem docinho. E a festa tá feita!
- Que horas vai ser mesmo?
- Umas 19h tá bom pra todo mundo, especialmente porque vai ser num domingo, e alguns tem trabalho na segunda de manhã.
- Ótimo, combinado.

Eu sempre gostei de fazer bolos. Aliás, eu sempre gostei de cozinhar. Estranhamente, meus pais não são muito fãs de culinária. Ou meus avós. Pelo menos os vivos. Acho que devo ter herdado isso da minha avó materna. Eu não saberia confirmar, eu não a conheci. Quando eu estava na barriga da minha mãe, ela se foi. Mesmo sem nunca tê-la visto, me sentia à vontade quando ouvia histórias, via fotos, comparavam nossas semelhanças. Como eu podia ter criado um laço tão forte com alguém que nunca conheci? Novamente, eu não saberia confirmar.

- Clara, você é muito besta. Você não só vai voltar pra aquele lugar, como vai perder seu tempo fazendo o bolo!
- Eu não acredito que vou ouvir isso de novo...
- É sério! Ninguém é assim tão besta! Só tu mesmo pra acreditar na ladainha de certas pessoas, especialmente depois de todos os sinais. Depois de todas as indiretas - muito diretas, se você quer saber minha opinião! Depois de todos os foras, depois do seu próprio pressentimento!
- Ok Ella, eu entendi! Agora dá pra parar? Já ouvi isso antes, e eu não vou mudar de ideia. Sempre que eu falo sobre isso com alguém as pessoas dizem que sou neurótica, que tenho síndrome disso, síndrome daquilo...
- NÃO é neurose. NÃO é síndrome... É a REALIDADE! As pessoas só tem medo de ficarem sozinhas! Esse medo impede-as de enxergar essa realidade com clareza!
- Ainda assim, não muda o fato de que eu resolvi olhar pra situação com outra perspectiva.
- Não é outra perspectiva, é uma ilusão. Você está escolhendo olhar pra situação com ilusão. E você sabe o que acontece quando a gente se ilude? (aquela era uma pergunta retórica, ainda assim ela ficou me olhando, esperando que eu respondesse)
- A gente se decepciona...
- Exato! Eu não consigo entender como você sabe disso... e ainda assim continua insistindo no mesmo erro! É burrice!
- Ella... quantas pessoas você viu me aceitarem como eu sou?
- Eu aceito como você é.
- Você não é parâmetro... além do mais, hoje se nós conseguimos nos ver uma vez por ano, já é lucro. O que eu vou fazer enquanto você estiver a 650km de distância? Jogar paciência? Colecionar tampinha de garrafa?
- Eles não aceitam você como é. Eles intencionalmente deixaram você de fora....
- Não foi bem assim...
- Eles combinaram com todo mundo, inclusive com sua irmã, mas você ficou de fora.
- Não faz isso comigo...
- Você saiu, gastou tempo, dinheiro, escolheu um presente com carinho, cuidado, zelo, escreveu um lindo cartão...
- Ella, por favor...
- E eles tiveram a cara de pau de dizer que a festa tinha sido cancelada! Você podia ouvir a festa rolando pelo telefone! Você viu as fotos na internet no dia seguinte!
- Ella PARE! (ambas nos encaramos por um momento. Ella me conhecia há muitos anos. Ela nunca me ouvia levantar a voz. Percebeu que havia passado dos limites. E sim, era doloroso lembrar de certas coisas.)
- Você sabe que eu quero o seu bem...
- Eu sei... mas o meu bem agora é que você respeite as minhas decisões, as minhas escolhas e as minhas amizades.
- Eu respeito as suas decisões, eu respeito as suas escolhas, eu aceito você como você é, mas... eu sinto muito, eu me recuso a aceitar que as pessoas que fizeram tudo aquilo com você sejam chamados de "amizades". Amizade é a nossa, que com todas as diferenças e distâncias, se fortaleceu em vez de enfraquecer. Amizade é a de Lílian, que mesmo morando no exterior, ligou pra te parabenizar no dia da sua colação de grau, ligou quando você terminou um namoro de 4 anos. Amizade é a de Irina, que ficou com você no hospital quando seu pai estava doente, e vibrou quando você lançou seu primeiro livro. (eu suspirei, porque no fundo, ela estava certa)
- Você não precisa gostar deles... só precisa aceitar que eu não vou deixar de encontrar com eles por conta da sua opinião.
- Caramba... bem que você podia usar essa determinação e energia em outra coisa. E teimosia, claro. Agora preciso ir embora, tenho que me arrumar pra mais tarde.

Nossas conversas sempre terminavam com um sorriso. Ella era minha amiga mais antiga e verdadeira. Ela sempre me dizia as maiores verdades, sem medo que eu "ficasse de mal". Aquilo era uma amizade com A maiúsculo. Não importava se eu achasse ruim, se fosse pro meu bem, ela diria sem dó nem piedade. Ela também esteve nos acontecimentos mais marcantes da minha vida. Ela se formou na alfabetização comigo. Depois na quarta série. Fizemos catecismo e crisma juntas. Em seguida, nos formamos no ensino médio. Então nos vimos distantes fisicamente quando ela foi fazer faculdade de arquitetura a 650km de onde nascemos e crescemos. Ainda assim, ela veio assistir às apresentações no meu primeiro fórum científico, ela foi a única que eu permiti entrar na sala quando apresentei minha monografia. Nossa amizade parecia de outro mundo. Eu era mais próxima dela do que da minha própria irmã! Não existia um pingo de ciúmes, inveja, cobiça... nada disso na nossa trajetória. Sentíamos o mais simples e genuíno prazer na felicidade uma da outra. Isso era tão raro que nem mesmo a distância física nos distanciou afetivamente. Benditas sejam as webcams e suas conferências via internet! Sempre cooperando pra que nossas contas de telefone não estourassem todo santo mês!

Agora, ela trabalhava numa grande empresa, a qual foi contratada mesmo antes de se formar. Isso era um grande orgulho pra mim e nada me deixava mais feliz do que vê-la feliz, bem sucedida. No entanto, isso significava que eu só poderia, com sorte, vê-la uma vez por ano, nas férias de Julho. Eram os 5 dias mais divertidos do ano. Nossas famílias eram muito amigas e era uma bênção que os encontros familiares não atrapalhariam nossas férias tão aguardadas - e cuidadosamente sincronizadas. Exceto pelo fato de que eu tinha um aniversário pra ir. Era na véspera do seu retorno. No mesmo horário da sua tradicional festa de despedida. E justo com as pessoas as quais ela menos confiava.

Eu não podia negar... tudo que ela me disse até hoje tem um fundo de verdade. Mas eu não conseguia desapegar. "Por quê?" eu mesma vivia me perguntando. Até quando eu ia seguir empurrando isso com a barriga, me envolvendo com pessoas que não me deixavam à vontade? Por que eu não podia simplesmente agir como meu coração mandasse? Porque eu não podia buscar a minha própria felicidade? Todo mundo tem direito de ser feliz, não? Eu passei horas confeitando aquele bolo, e quanto mais eu refletia sobre isso mais eu pensava nas palavras que Ella me disse durante todos esse anos. Por que depositar meu tempo, cuidado, carinho, zelo em situações e relações que não me acrescentavam em nada... sequer me davam satisfação! Pelo contrário, me faziam sentir insegura, desconfortável. Era hora de uma mudança. Por meses... até anos, pensei nessa decisão. Era a hora de tomá-la. E o maior sinal de que aquela era uma decisão acertada pra mim, é que no momento em que decidi tomá-la, eu estava em paz. Dane-se a quantidade! Qualidade... essa sim merecia minha total e completa atenção. Ao terminar o bolo, percebi que tinha uma festa de despedida a comparecer.

Naquela noite, tomei um banho demorado, arrumei o cabelo, me maquiei e me vesti de maneira confortável, pois eu sabia que ninguém ia estar prestando atenção nas roupas, e sim nas presenças! Então, escolhi minha sapatilha favorita. Aquele simples calçado que sempre me diferenciou de tanta gente durante tantos anos... e que eu havia abandonado pelo "glamour" dos saltos altos (e infinitamente desconfortáveis). Aquela linda sapatilha bordada com um belo laço de camurça... sim, ela era minha passagem pra liberdade. O primeiro olhar que encontrei ao entrar naquele salão foi o de Ella. Seus olhos brilharam de... alívio. Ela veio até mim, e com um longo abraço, disse:

- Nem sempre as coisas são como queremos. Às vezes, demora tempo demais pra percebermos isso. Mas o importante, é que possamos deixar pra trás tudo que de alguma forma nos atrasou, e com toda a disposição e energia que temos, seguir em frente mais maduros e experientes, em busca dos nossos sonhos e da plena felicidade.